DoMovin´ Escreveu:
Amanhã venho aqui descascar forte e feio na bosta de percurso que vai saír. Mark my words!
Estão a ver como adivinhei? Este percurso é HORRÍVEL

É incrível como depois da seca de prova que foi a Vuelta do ano passado, a direcção da prova decide seguir na mesma linha, mas tirando os pontos positivos que aquele traçado tinha e apostando forte nos negativos. O percurso não é tão mau como os da Vuelta 2007 ou Tour 2009, mas anda lá perto. Vou fazer apenas uma consideração das etapas decisivas, mas as deficiências no percurso são evidentes.
Primeiro que tudo a organização esteve bem ao meter a 3ª etapa com um final duro, para marcar desde logo diferenças na geral e obrigar os ciclistas a estarem bem desde início da prova. Não compreendo é porque carga de água no dia seguinte metem outra chegada em alto a Valdezcarray, que é uma subida com inclinação bastante baixa e nunca na vida alguém da geralvai atacar ali, tanto que na última vez que a Vuelta chegou ali ganhou o Kelly num sprint de 30 unidades, isto nos anos 80, em que as diferenças eram muito maiores que na actualidade. Compreendia a inclusão desta subida se não houvesse a etapa anterior a acabar em Arrate, mas meter estas duas etapas de modo consecutivo é claramente colocar dureza à toa em etapas que nada vão interessar para a Geral.
A etapa 6, juntamente com a 12 e 17 são os únicos finais em subidas explosivas. Eu pessoalmente tirava um deles, mas não é por aí que este percurso é melhor ou pior.
Depois há a etapa 8, que é a etapa de montanha mais mal planificada que vejo em toda a minha vida. Esta etapa tinha tudo para ser a raínha da prova, bastando-lhe fazer a combinação Ordino-Rabassa-La Gallina. Em vez disso têm a ideia peregrina de trocar as duas primeiras subidas por uma subida de 2ª categoria, e acabam a subida final
a meio 
. Ou seja, conseguem transformar uma grande etapa de montanha numa etapa de passeio em que só irão existir ataques a 2 km's da meta, como aliás é apanágio da Vuelta com as "magníficas" jornadas montanhosas que a organização propõe ano após ano.
O contra-relógio tem um bom percurso, que pessoalmente me agrada imenso, mas a Vuelta cai no mesmo erro que o Tour tem vindo a caír ano após ano. A organização ainda não percebeu que ao diminuír a quantidade de crono(que para mim devia ser sempre pelo menos 80 km's) está a diminuír as perdas dos trepadores para a frente, pelo que eles não têm necessidade de atacar nas etapas de montanha. Isto vai resultar em pouco espectáculo nas etapas de montanha, porque os trepadores não se vêm obrigados a atacar de longe, porque podem recuperar o tempo que perdem no único crono da prova através de um ataque a 2 km's da meta e assim aproveitar os 20 segundos de bonificação em cada um dos 500 finais em alto que a prova tem. Se para além daquele CR houvesse outro de 50km's, o percurso teria imenso a ganhar com isso.
A etapa 14 é outra bodega. Querem fazer um final ao alto na subida de Ancares, uma das subidas mais difíceis de Espanha. Óptimo...até ao momento em que decidem fazê-lo pelo lado mais fácil da subida
Na etapa 15 ocorre uma melhoria, simplesmente pelo facto de que fazer um percurso para a etapa dos Lagos de Covadonga pior que o de 2010 é impossível. A etapa é bem razoável, mas não deixam de haver opções de percurso muito melhores para fazer um final ao alto ali.
Depois temos as etapas 16 e 20, que são mais um caso evidente de má planificação. Um dos requisitos fundamentais para um GT ter um bom percurso é a sua variedade. As subidas à Bola del Mundo e ao Cuitu Negru têm características demarcadas uma da outra. Ainda por cima são subidas que não me agradam nada, porque pelas suas características pouco espectáculo podem proporcionar. Ambas as etapas são duras, mas toda a gente sabe que podem tirar uma sesta naquele dia e ligar o televisor a 3km's do fim da etapa, porque até aí os líderes de cada equipa não se mexem nem que alguém lhes ponha um saco de ouro à frente.
No fundo, a Vuelta 2012 é uma prova mal distribuída, propícia ao sempre irritante ciclismo de Youtube(aposto que se só ligar a televisão a 10 km's do final de cada etapa não perco um único momento decisivo para a geral, tirando factores extra-corrida como quedas), e que beneficia ciclistas explosivos mas sem fundo e que nunca na vida têm características para lutar pela vitória num GT. Para além disso há a mania irritante de meterem finais em alto nas subidas mais duras do dia a torto e a direito. Alguém lhes explica que tirando os casos do Passo Coe em 2002 e do Alpe d´Huez em 2011, nenhuma das melhores etapas dos GT's da última década terminava em alto nem na subida mais difícil do dia? Posso dar vários exemplos por alto: Galibier 2011, Gardeccia 2011, St Jean-de Maurienne 2010, Montalcino 2010, Aprica 2010, Morzine 2006, Finestre 2005, Pontechianale 2003, etc...
Resumindo, esta Vuelta é uma prova em que se pode passar alguma coisa todos os dias, mas em que vai ser impossível verificar-se uma única grande etapa que seja. Já agora, eu concordo com o fim dos rádios, mas era muito mais importante que a UCI banisse GT's sem uma única etapa acima dos 200 km's. Isto é um atentado à história do ciclismo, como desporto de fundo que é.