Pengo Escreveu:
A Volta é um negócio, se a tiras do mês de julho/agosto, retiras lhe o conceito de festa popular que sempre teve, perdendo o interesse para as estacões de televisão que a pretendam transmitir e até aqueles adeptos que não percebem nada de ciclismo mas vão para a beira da estrada aplaudir ciclistas que nem sabem quem são, passam a fazê-lo em número bem mais reduzido.
O ciclismo português vive preso a um ciclo vicioso que, ano após ano, impede o seu desenvolvimento. No centro desta realidade está a Volta a Portugal, que se tornou, para a maioria das equipas nacionais, a única oportunidade relevante de garantir visibilidade aos patrocinadores. Apesar da Volta ao Algarve ter elevada projeção televisiva internacional, esta não proporciona o mesmo retorno mediático interno para os patrocinadores portugueses, muitas vezes pouco interessados em mercados exteriores.
O problema é que o nosso país tem mais equipas do que a realidade económica comporta. São, na sua maioria, formações fracas, descompensadas e com orçamentos reduzidos, que pagam pouco e, por vezes, com atrasos. Isto leva a que a VaP seja vista como a “semana e meia de ouro” do ciclismo nacional, o momento em que as equipas tentam justificar todo o investimento anual. Não é raro ver os patrocinadores presentes nas etapas, tirando fotografias e até dentro dos carros da equipa, numa lógica mais próxima de relações públicas do que de um verdadeiro investimento desportivo de longo prazo.
E como ninguém gosta de perder, a tendência natural destas equipas é querer uma VaP menos competitiva, com um nível técnico mais baixo, reduzindo a presença de formações estrangeiras que possam criar dificuldades e ameaçar vitórias caseiras. Não é por acaso que diretores como o José Santos ou o Vidal defendem abertamente que a prova poderia baixar de categoria, para muitos, quanto mais baixo for o nível, melhor.
A verdade é que o ciclismo nacional está como está devido às equipas, à forma como são geridas e à própria federação. Federação essa, que com a atual liderança, não se vislumbram mudanças significativas. Não é possível desenvolver a modalidade com seis equipas continentais a sobreviverem com orçamentos mínimos, nem com a existência da FullRacing a perseguir uma hegemonia que já vem acompanhada de um histórico de situações suspeitas. Quem acompanha o ciclismo sabe exatamente a que me refiro.
O problema é também cultural, existe uma obsessão quase doentia por ganhar a qualquer custo, sem uma estratégia global de crescimento, sem apostar na formação sustentável e sem criar um calendário interno competitivo que prepare os ciclistas para desafios maiores. Este ambiente, marcado por amadorismo e pressão desproporcionada, sufoca o talento.
Por isso, os melhores jovens ciclistas portugueses acabam, inevitavelmente, por sair do país para crescer. Lá fora encontram condições de treino, organização, profissionalismo e estabilidade financeira que, em Portugal, raramente existem. Aqui, muitos são "profissionais" apenas no nome, "vão andando" com salários e condições que nada têm a ver com o verdadeiro profissionalismo.